A fitoterapia tem sido uma aliada da medicina ao longo da história, proporcionando alternativas naturais para o tratamento de diversas condições de saúde. Entre as plantas de destaque nesse campo, a Vinca menor (Vinca minor L.) se sobressai por suas propriedades hemostáticas, adstringentes, hipotensivas e digestivas. Tradicionalmente utilizada na Farmacopeia Homeopática, essa espécie tem sido empregada, sobretudo, na regulação do fluxo menstrual, além de atuar em outras afecções do trato digestivo e cardiovascular.
Neste artigo, exploraremos em detalhes suas características botânicas, propriedades medicinais, indicações terapêuticas, precauções e o embasamento científico por trás de seus efeitos.
Descrição e Características Botânicas
A Vinca menor, pertencente à família Apocynaceae, é um subarbusto perene, que pode atingir até 60 cm de altura. Possui dois tipos de ramos:
- Ramos não florescentes, que crescem de forma prostrada, cobrindo o solo.
- Ramos florescentes, que se desenvolvem na posição ereta e dão origem às inflorescências.
Suas folhas são ovadas, pecioladas e apresentam margens ciliadas, tornando-se glabras com o tempo. As flores são tubulares, de coloração lilás-azulada e formadas por cinco pétalas irregulares, surgindo nas axilas das folhas superiores. O fruto é um folículo que abriga duas ou três sementes.
Origem e Habitat
A Vinca menor é nativa da Europa, sendo amplamente distribuída da Espanha ao Cáucaso. Com o passar dos séculos, a espécie foi naturalizada em diversas regiões tropicais e temperadas, tornando-se uma planta cosmopolita. Prefere ambientes sombreados e solos ricos em matéria orgânica, sendo frequentemente cultivada como planta ornamental devido à sua beleza e resistência.
As partes utilizadas para fins medicinais incluem toda a planta, especialmente as folhas e flores.
Propriedades Medicinais e Benefícios
A Vinca menor se destaca na medicina tradicional devido à presença de alcaloides indólicos, como vincamina, vincina, apovincamina, vimblastina, vincristina e vindesina. Essas substâncias são amplamente estudadas por suas propriedades vasodilatadoras, neuroprotetoras e antitumorais.
A planta também contém flavonoides (como kaempferol e quercetina), saponinas e taninos, compostos que reforçam suas ações antioxidantes, digestivas e adstringentes.
- Regulação do Fluxo Menstrual
A Vinca menor é tradicionalmente utilizada para tratar distúrbios menstruais, sendo eficaz na redução do fluxo excessivo (menorragia) e no controle de sangramentos uterinos anormais (metrorragia). Seu efeito hemostático se deve à ação adstringente e vasoconstritora dos alcaloides e taninos, que ajudam a reduzir a permeabilidade capilar e a conter pequenas hemorragias.
Essa propriedade faz com que a planta seja indicada para outros tipos de sangramentos, como:
- Hemorragias nasais (epistaxe)
- Sangramentos gengivais
- Úlceras bucais e amigdalites
- Saúde Cardiovascular e Hipotensão
A vincamina, um dos principais alcaloides da Vinca menor, possui efeito vasodilatador, aumentando o fluxo sanguíneo para o cérebro. Por isso, a planta tem sido estudada como um potencial neuroprotetor, podendo auxiliar na melhoria da memória e concentração, sendo de interesse no tratamento da doença de Alzheimer e declínios cognitivos.
Além disso, a planta apresenta ação hipotensiva, favorecendo o controle da pressão arterial, especialmente em casos de hipertensão leve.
- Efeitos Digestivos e Antissépticos
Os taninos e flavonoides presentes na Vinca menor possuem propriedades antissépticas e adstringentes, auxiliando no tratamento de:
- Diarreias leves e gastroenterites
- Afecções urinárias, como hematúria (presença de sangue na urina)
- Abscessos cutâneos e eczemas
Seu efeito antisséptico se estende ao trato gastrointestinal, sendo empregada na fitoterapia para tratar infecções leves e auxiliar na digestão.
- Potencial Antitumoral
A vincristina e a vimblastina, dois alcaloides isolados da Vinca minor, são amplamente utilizados na oncologia como agentes quimioterápicos. Essas substâncias atuam inibindo a divisão celular, sendo eficazes no tratamento de diversos tipos de cânceres hematológicos e sólidos.
Pesquisas indicam que derivados da Vinca minor continuam a ser estudados para o desenvolvimento de novas terapias oncológicas, reforçando a importância da planta na farmacologia moderna.
Formas de Uso e Administração
A Vinca menor pode ser utilizada na fitoterapia de diferentes formas:
- Infusão (chá): Preparado com folhas e flores secas, indicado para controle do fluxo menstrual e afecções digestivas.
- Extrato fluido ou tintura: Solução hidroalcoólica utilizada para fins cardiovasculares e neuroprotetores.
- Uso externo: Infusão aplicada em compressas para tratamento de feridas, úlceras e inflamações cutâneas.
A posologia deve ser seguida com rigor, visto que altas doses podem ser tóxicas.
Precauções e Considerações Toxicológicas
Embora possua diversos benefícios, o uso da Vinca menor requer precaução. Em doses elevadas, seus alcaloides podem provocar:
- Distúrbios gastrointestinais (náuseas, vômitos e diarreia)
- Redução excessiva da pressão arterial
- Efeitos neurotóxicos, como tontura e sonolência
A planta não deve ser utilizada por gestantes e lactantes, devido ao seu efeito sobre o útero e à possibilidade de toxicidade fetal. Seu uso deve ser sempre orientado por um profissional de saúde.
A Vinca menor é uma planta de grande relevância na fitoterapia e farmacologia, sendo utilizada historicamente para o tratamento de distúrbios menstruais, problemas cardiovasculares e infecções digestivas. Seus alcaloides indólicos, flavonoides e taninos conferem propriedades hemostáticas, adstringentes, hipotensivas e neuroprotetoras, tornando-a uma opção natural valiosa.
No entanto, devido ao seu potencial tóxico, seu uso requer orientação profissional, especialmente em preparações concentradas. Com mais pesquisas sobre seus princípios ativos, a Vinca menor continua a ser uma planta de interesse tanto na medicina tradicional quanto na ciência moderna.
Farmacologia:
A vincamina é hipotensiva, negativamente cronotrópica, antiespasmódica, hipoglicemiante e simpatolítica. Pode ser utilizada como um amaróide; A planta é utilizada internamente para distúrbios circulatórios, melhora da circulação cerebral e metabolismo do cérebro hipertensão, distúrbios da digestão, queixas urinárias.
Toxicologia: Sem toxidade nas doses recomendadas. Não há relatos de casos de morte por envenenamento.
Uso na gestação e na amamentação: Não há informações da sua farmacocinética ou sobre seu uso nestas condições, onde se recomenda que não seja utilizada.
Posologia: 3 a 6ml de tintura divididos em 2 ou 3 doses diárias, diluídos em água; 2g de erva seca {1 colher de sobremesa para cada xícara de água) em decocto até 3 vezes ao dia, com intervalos menores que 12hs para uso interno em todas as indicações; Nos casos de diarreia, o chá deve ser tomado após s refeições; O dobro da dose da infusão pode ser usado como colutório e gargarejo; Vinhos medicinais podem ser feitos com a planta seca, que deverá ser tomado, 1 colher de sobremesa, antes das principais refeições.
Precauções: Planta segura, no uso e doses terapêuticas indicadas.
Efeitos colaterais: Distúrbios gastrintestinais, hipotensão severa, rash cutâneo.
Superdosagem:
Queda brusca da pressão arterial; Caso ocorra, deverá ser feito o esvaziamento gastrintestinal, administração de carvão ativado e profilaxia de choque; Não há relatos de envenenamento; O FDA considera a Vinca menor não segura para consumo humano; Entretanto, a Turquia, Europa e Eurásia utilizam-na e também a Homeopatia; Sendo a Vinca rosa e a Vinca menor, da mesma família botânica Apocynaceae, há convergência de descrições botânicas e de princípios ativos. Onde muitas vezes, o autor descreve uma planta ou seus princípios ativos, referindo-se a outra.
Referências Bibliográficas
- BARNES, J.; ANDERSON, L. A.; PHILLIPSON, J. D. Herbal Medicines. 3. ed. London: Pharmaceutical Press, 2007.
- DUKE, J. A. Handbook of Medicinal Herbs. 2. ed. Boca Raton: CRC Press, 2002.
- WHO. Monographs on Selected Medicinal Plants. Geneva: WHO, 2004.
- SANTOS, J. E. M. Fitoterapia Aplicada à Saúde. São Paulo: Edusp, 2016.