A fitoterapia brasileira se destaca pela riqueza de espécies vegetais utilizadas ao longo dos séculos no tratamento de diversas enfermidades. Entre essas plantas, o cipó-sucuriju (Mikania amara), uma trepadeira da família Asteraceae (anteriormente Compositae), chama atenção por suas propriedades febrífugas, tônicas e expectorantes. Empregado tradicionalmente contra febres intermitentes, doenças respiratórias e até mesmo no tratamento de mordeduras de cobras, essa planta desperta interesse tanto da medicina popular quanto da ciência moderna.
Neste artigo, abordaremos suas características botânicas, propriedades medicinais, indicações terapêuticas, precauções e seu potencial na pesquisa farmacológica.
Descrição Botânica
O cipó-sucuriju é uma trepadeira lenhosa de caule cilíndrico e ramos pubescentes de coloração castanha. Suas folhas são opostas, pecioladas, com formato largo-oval-triangular, apresentando ápice acuminado e dimensões que podem alcançar até 10 cm de comprimento por 6 cm de largura. A face superior das folhas é lisa e brilhante, enquanto a inferior é recoberta por uma fina pubescência.
As flores brancas surgem agrupadas em inflorescências corimboso-paniculadas, com capítulos longos e pedunculados, contendo quatro flores cada. Seus frutos são aquênios cilíndricos, glabros, de aproximadamente 4 mm, acompanhados de um papilho composto por cerca de 40 cerdas avermelhadas.
Essa planta é amplamente distribuída no Brasil, crescendo espontaneamente em jardins, quintais e áreas de vegetação aberta. Entretanto, seu habitat natural inclui principalmente as florestas da Amazônia e das Guianas, onde encontra condições ideais para seu desenvolvimento.
Distribuição e Habitat
O cipó-sucuriju é encontrado em praticamente todo o território brasileiro, sendo especialmente comum em regiões de clima tropical úmido. Sua ocorrência abrange desde o nível do mar até altitudes moderadas, preferindo solos férteis e bem drenados.
Embora seja cultivado em hortas medicinais e jardins devido às suas propriedades terapêuticas, sua distribuição natural é mais notável na Amazônia e nas Guianas. Nessas regiões, essa planta se desenvolve de maneira espontânea, compondo parte da biodiversidade local.
Parte Utilizada e Formas de Consumo
As partes medicinais do cipó-sucuriju incluem seu caule e suas folhas, que são utilizadas na preparação de infusões, xaropes e extratos. Seu uso na medicina popular é amplamente difundido, especialmente como febrífugo e tônico.
• Infusão: As folhas podem ser preparadas em infusão (chá), proporcionando efeitos estimulantes e expectorantes.
• Xaropes: Amplamente utilizado em xaropes nacionais e estrangeiros para o tratamento de tosses e bronquites.
• Decocção: Indicada para suas propriedades anti-helmínticas e febrífugas.
De acordo com relatos tradicionais, a infusão das folhas não causa efeitos adversos quando consumida nas doses recomendadas. No entanto, extratos mais concentrados, quando administrados a animais, demonstraram efeitos colaterais como vômitos, diarreia, queda da pressão arterial, diminuição da frequência do pulso e até morte, conforme descrito pelo Dr. A. J. de Sampaio.
Propriedades Medicinais e Indicações
O cipó-sucuriju apresenta um amplo espectro de ações medicinais, sendo empregado para o tratamento de diversas condições. Entre suas principais propriedades, destacam-se:
• Febrífuga: Reduz febres intermitentes, sendo uma alternativa natural aos antipiréticos sintéticos.
• Estimulante e tônica: Fortalece o organismo e pode ser usada como reconstituinte.
• Expectorante: Auxilia na eliminação de muco e catarro, sendo útil em tosses persistentes e bronquites.
• Anti-helmíntica: Possui ação contra parasitas intestinais, sendo empregada no combate a verminoses.
Indicações Terapêuticas
O cipó-sucuriju é tradicionalmente indicado para o tratamento de:
• Febres intermitentes
• Gota e reumatismo
• Sífilis
• Cólera-morbo
• Mordeduras de cobras e escorpiões
Embora algumas dessas indicações sejam baseadas em conhecimento tradicional, estudos científicos adicionais são necessários para validar sua eficácia em determinadas enfermidades.
Efeitos Colaterais e Precauções
Apesar do uso popular seguro na forma de chá, altas doses de extratos concentrados podem desencadear efeitos adversos, conforme observado em estudos com animais. Os principais efeitos colaterais incluem:
• Vômitos e diarreia
• Queda da pressão arterial
• Diminuição da frequência cardíaca
• Albuminúria (presença de albumina na urina, indicando possível comprometimento renal)
• Hipotermia
Diante desses riscos, recomenda-se cautela no uso excessivo da planta. Gestantes, lactantes e pessoas com condições cardiovasculares devem evitar seu consumo sem orientação médica.
Potencial Farmacológico e Estudos Científicos
Embora o cipó-sucuriju seja amplamente utilizado na medicina tradicional, sua composição química e potencial terapêutico ainda estão sendo investigados. Sabe-se que a planta contém um alcaloide febrífugo, responsável por suas propriedades antipiréticas, mas a presença de outros compostos bioativos precisa ser mais bem elucidada.
Pesquisas preliminares na Europa avaliaram sua eficácia como antirreumático e febrífugo, com resultados promissores. No entanto, estudos clínicos controlados são necessários para confirmar sua segurança e efetividade no tratamento dessas condições.
O cipó-sucuriju (Mikania amara) é um exemplo notável do potencial medicinal das plantas brasileiras. Seu uso tradicional como febrífugo, expectorante e anti-helmíntico destaca sua importância na fitoterapia popular.
Embora relatos científicos já apontem alguns de seus efeitos terapêuticos, a pesquisa farmacológica deve avançar para determinar sua real aplicabilidade clínica e esclarecer eventuais riscos. Como qualquer tratamento natural, o consumo do cipó-sucuriju deve ser feito com moderação e, sempre que possível, com orientação profissional.
Referências Bibliográficas
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