Plantas Que Curam

Casca-d’anta (Drimys winteri): História, usos e benefícios

A relação entre seres humanos e plantas medicinais é tão antiga quanto a própria civilização. Desde os primórdios, povos indígenas e comunidades tradicionais exploram o potencial curativo das plantas, transmitindo esse conhecimento por meio de gerações. A Casca-d’anta (Drimys winteri), também chamada de Canelle de Magellan na França, destaca-se nesse contexto como uma planta de notável valor medicinal e cultural.

Presente desde as regiões tropicais do Brasil até as frias paisagens da Patagônia, essa espécie da família Winteraceae é amplamente reconhecida por suas propriedades terapêuticas, seu uso histórico e sua madeira versátil. Neste artigo, exploramos as características botânicas, aplicações medicinais e importância cultural dessa planta, abordando também suas precauções e contra indicações.

Descrição botânica

A Drimys winteri é um arbusto ou árvore que pode atingir diferentes alturas conforme a região em que se encontra. No Brasil, raramente ultrapassa 3 a 4 metros, enquanto nas florestas do sul da América do Sul, especialmente na Patagônia, pode alcançar 30 metros de altura.

Seus ramos avermelhados e folhas alternas, simples e pecioladas podem chegar a 13 cm de comprimento, apresentando coloração verde-clara na face superior e brancacenta na inferior. Suas flores, geralmente brancas e grandes, podem ocorrer isoladas ou agrupadas em umbelas axilares ou terminais, possuindo sépalas (2 ou 3) e múltiplas pétalas (6 ou mais).

O fruto, uma baga vermelho-escuro quase preta, assemelha-se ao tamanho de um grão de pimenta-do-reino e contém grande quantidade de sementes.

A casca, que é a parte medicinalmente mais relevante da planta, apresenta um tom vermelho-ferrugíneo ou acinzentado, sendo espessa, amarga, aromática e quebradiça.

Origem e distribuição

A Drimys winteri é nativa do Brasil, Chile e Peru, mas sua distribuição se estende da América Central até a Patagônia. Ela cresce principalmente em regiões úmidas e montanhosas, sendo capaz de tolerar diferentes condições climáticas.

História e usos tradicionais

A casca dessa árvore é conhecida por suas propriedades curativas desde tempos imemoriais. O nome casca-d’anta surge de uma lenda brasileira segundo a qual a anta, ao adoecer, buscaria essa casca para se curar.

Além disso, diferentes povos desenvolveram usos específicos para essa planta:

  • Na Costa Rica, mastiga-se a casca para aliviar dores de dente.
  • No México, é utilizada como condimento culinário devido ao seu sabor marcante.
  • Os aborígenes Araucanos do Chile a incorporavam em rituais e festas tradicionais, acreditando que ela possuía propriedades sagradas.
  • Na Europa, foi chamada de Canelle de Magellan, sendo uma das primeiras especiarias sul-americanas a chegar ao continente.

Um dos relatos históricos mais famosos sobre essa planta remonta a 1557, quando os tripulantes do explorador Sir Francis Drake enfrentaram uma epidemia devastadora de escorbuto. A casca de Drimys winteri foi utilizada para tratar os marinheiros e salvou suas vidas, tornando-se conhecida como “Casca de Winter”.

Propriedades medicinais

Estudos e usos tradicionais apontam que a Drimys winteri contém substâncias ativas que lhe conferem diversas propriedades terapêuticas. Entre os compostos identificados, destacam-se óleos essenciais, resinas, alcaloides e taninos, que possuem ação anti escorbútica, estomáquica, diurética, antidiarreica, sudorífica e tônica (Falkenberg et al., 1994; Alonso, 2004).

As principais indicações terapêuticas incluem:

Modo de uso e preparação

A forma mais comum de consumo é através do chá da casca, preparado da seguinte maneira:

Ingredientes:

  • 6 gramas de casca de Drimys winteri
  • 1 copo (250 ml) de água fervente

Modo de preparo:

  1. Ferva a água.
  2. Adicione a casca e deixe em infusão por aproximadamente 10 minutos.
  3. Coe e consuma morno, de preferência antes das refeições.

Doses recomendadas:

  • Adultos: até 2 xícaras ao dia.
  • Uso contínuo não recomendado por longos períodos, devido à possível irritação gástrica.

Precauções e contraindicações

Embora a casca-d’anta seja considerada segura para uso medicinal, alguns cuidados devem ser observados:

  • Evitar o consumo excessivo, pois pode causar irritação no estômago.
  • Gestantes e lactantes devem evitar o uso sem orientação médica.
  • Pessoas com gastrite ou úlceras gástricas devem ter cautela, pois a planta pode aumentar a acidez estomacal.
  • Caso ocorram reações adversas, como náuseas ou desconforto gástrico, recomenda-se a suspensão imediata do uso.

A Drimys winteri é uma planta de extrema relevância tanto na medicina popular quanto na fitoterapia moderna. Sua história, atravessando diferentes culturas e séculos, reflete sua eficácia e versatilidade.

Com propriedades que vão desde a cura do escorbuto até o fortalecimento do sistema digestivo, essa planta se mantém como um importante recurso natural na busca por saúde e bem-estar. No entanto, é essencial respeitar as doses recomendadas e considerar as possíveis contra indicações.

A valorização da medicina natural, aliada a pesquisas científicas rigorosas, permite que o conhecimento tradicional sobre plantas como a casca-d’anta continue a beneficiar gerações futuras.