A noz-moscada (Myristica fragrans), além de seu papel como condimento na culinária mundial, possui propriedades medicinais notáveis. No entanto, seu uso requer cautela devido aos potenciais efeitos alucinógenos e abortivos em doses elevadas. Este artigo explora em detalhes suas características botânicas, princípios ativos, aplicações terapêuticas, história e contraindicações, destacando seu papel na medicina tradicional e contemporânea.
Descrição Botânica
Pertencente à família Myristicaceae, a moscadeira é uma árvore de porte médio e crescimento lento, podendo alcançar mais de 20 metros de altura. Trata-se de uma planta dioica, ou seja, apresenta flores masculinas e femininas em indivíduos distintos, com uma proporção geralmente equilibrada entre os sexos.
Seu fruto assemelha-se ao pêssego e, ao amadurecer, abre-se, revelando uma semente envolta por uma arila de coloração laranja-avermelhada. A semente, após secagem, é conhecida como noz-moscada, enquanto a arila dá origem ao macis, uma especiaria de sabor mais suave e delicado.
Origem e Habitat
Originária das Ilhas Molucas, na Indonésia, a noz-moscada se adaptou a regiões tropicais, sendo cultivada na Índia, Sri Lanka, Malásia e Granada. Prefere solos bem drenados, ricos em matéria orgânica, e clima quente e úmido, típico das zonas equatoriais.
História e Uso Tradicional
O uso da noz-moscada remonta ao século VI d.C., quando comerciantes árabes introduziram a especiaria no Ocidente. No século XII, já era conhecida na Europa, tanto como tempero quanto por suas propriedades medicinais. Durante o século XIX, ganhou notoriedade como agente abortivo e emenagogo (estimulante da menstruação), embora esse uso tenha caído em desuso devido aos riscos associados.
Composição Química
Os benefícios da noz-moscada derivam de sua rica composição química, que inclui:
• Óleos essenciais: borneol, canfeno, eugenol, geraniol, linalol, miristicina, pineno e terpineol.
• Compostos fenólicos: elemicina e safrol.
• Outros compostos: trimiristicina e tujeno.
A miristicina é particularmente relevante devido ao seu efeito psicoativo em doses elevadas, o que reforça a necessidade de moderação no consumo.
Propriedades Medicinais
A noz-moscada é reconhecida por suas propriedades digestivas, carminativas (reduz gases intestinais), anti-inflamatórias e sedativas. Entre seus efeitos terapêuticos, destacam-se:
• Digestivo e estomáquico: auxilia na digestão, combate cólicas estomacais e alivia náuseas.
• Carminativo: reduz a formação de gases intestinais.
• Anti-inflamatório: alivia dores reumáticas e inflamações musculares.
• Sedativo e tônico: promove o relaxamento e fortalece o sistema nervoso.
• Afrodisíaco: em doses moderadas, estimula o apetite sexual.
Indicações Terapêuticas
A noz-moscada pode ser utilizada no tratamento de diversas condições, incluindo:
• Distúrbios gastrointestinais, como dispepsia, flatulência e cólicas intestinais.
• Afecções respiratórias, como asma e bronquite.
• Doenças reumáticas, incluindo reumatismo gotoso.
• Problemas dermatológicos, como abscessos e supurações cutâneas.
• Hemorragias leves e leucorreia.
• Otites supuradas e mau hálito.
• Estímulo da memória e fortalecimento do sistema nervoso.
Modo de Uso
A noz-moscada pode ser utilizada de diferentes formas, dependendo da finalidade:
• Uso culinário: como condimento em pratos salgados, doces e bebidas.
• Infusão: uma pitada em água quente para alívio de cólicas e gases.
• Pó: em pequenas quantidades para estimular a digestão e combater náuseas.
• Óleo essencial: uso tópico diluído para aliviar dores musculares (sempre sob orientação profissional).
É essencial respeitar as dosagens recomendadas, uma vez que o consumo excessivo pode causar efeitos colaterais graves.
Contraindicações e Cuidados
O uso da noz-moscada deve ser evitado em certas situações devido aos riscos à saúde:
• Gravidez e lactação: pode causar abortos e prejudicar o desenvolvimento fetal.
• Distúrbios hepáticos: o safrol é potencialmente hepatotóxico.
• Doses elevadas: podem provocar alucinações, confusão mental, taquicardia, náuseas e, em casos graves, convulsões e morte.
O uso prolongado ou em quantidades excessivas pode levar ao desenvolvimento de dependência psicológica devido aos efeitos psicoativos da miristicina.
Aspectos Tóxicos e Psicoativos
Em doses superiores a 5 gramas, a miristicina atua no sistema nervoso central, causando efeitos semelhantes aos de alucinógenos leves. Os sintomas incluem euforia, distorção da percepção sensorial, ansiedade, taquicardia e náuseas. O uso recreativo é perigoso e não recomendado, devido à variabilidade das reações e ao risco de intoxicação.
A noz-moscada, além de seu uso culinário, possui diversas propriedades medicinais que a tornam valiosa na fitoterapia. No entanto, seu consumo deve ser realizado com moderação e sob orientação profissional, especialmente devido ao potencial tóxico em doses elevadas. O conhecimento de suas propriedades e riscos é essencial para aproveitar seus benefícios de forma segura.
Posologia:
Como condimento, geralmente a noz é ralada sobre os alimentos e o chá é feito com partes de uma noz, o que daria uma dosagem abaixo do limite de intoxicação. É importante notar que o consumo de noz-moscada em doses de 1 a 2 mg/kg de peso corporal foi relatado capaz de induzir efeitos colaterais do SNC. A overdose tóxica ocorreu com o consumo de 5 gramas.
Interação medicamentosa: Devido à propriedade ansiolítica da noz-moscada, teoricamente, uma interação pode ocorrer com o uso concomitante da noz-moscada e macis e drogas ansiolíticas. Interações da noz-moscada com diazepam, ondansetron, ou buspirona foram observadas em ratos. Uma morte foi associada com a ingestão simultânea de grandes quantidades de noz-moscada e de flunitrazepam. O composto miristicina apresentou uma fraca atividade de inibição das enzimas MAO (monoamina oxidase).
Efeitos colaterais:
As reações adversas relatadas: alergia, dermatite de contato e asma. Os componentes químicos limoneno e eugenol também são alergênicos ao contato, e a reatividade de anticorpos IgE foi demonstrada para a noz-moscada e o macis. Foi observado também excitação do SNC, com a presença de ansiedade e/ou medo, diminuição da salivação, sintomas gastrointestinais, taquicardia e vermelhidão da pele (flushing cutâneo).
Superdosagem: É importante notar que o consumo de noz-moscada em doses de 1 a 2 mg/kg de peso corporal foi relatado capaz de induzir efeitos colaterais do SNC. A overdose tóxica ocorreu com o consumo de 5 gramas.
Toxicologia: Intoxicação por noz-moscada produz psicose aguda e episódios similares ao estado anticolinérgico, com uma grande variedade de sintomas. Os efeitos ocorreram dentro de 0,5 a 8 horas após a ingestão. Os episódios são caracterizados por vermelhidão da pele (flushing cutâneo), pela taquicardia, diminuição da salivação, sintomas gastrointestinais (dor abdominal, náusea, vômito), febre e excitação do SNC com ansiedade e/ ou medo. Miose (contração da pupila) ou midríase (dilatação da pupila) não é considerado sinal seguro de intoxicação, pois qualquer um dos dois pode ocorrer. Foi também relatada a ocorrência – do choque, do coma e até a morte. O tratamento disponível é de suporte, com o uso da terapia antipsicótica quando necessário; Os efeitos citotóxicos e apoptóticos da miristicina foram explorados. A viabilidade celular foi reduzida pela exposição à miristicina de uma maneira dependente da dose e do período da administração. O safrol, um componente menor do óleo, também foi mostrado capaz de promover hepatocarcinomas em ratos.
Farmacologia:
O óleo essencial da noz-moscada e do macis é bastante similar em sua composição química e no aroma, diferindo apenas na cor (laranja brilhante até amarelo claro). O óleo do macis possui uma quantidade mais elevada de miristicina do que o óleo da noz-moscada.
Os componentes químicos responsáveis pelos efeitos no SNC parecem ser a miristicina, que é um agente alucinógeno e um fraco IMAO (inibidor da monoamina oxidase), a elemicina, safrol, e a trimiristina (produzem efeitos ansiogênicos), sendo alguns componentes tendo estruturas similares aos agonistas da serotonina; O eugenol foi identificado como o componente da noz-moscada com atividade antioxidante, com inibição da produção do óxido nítrico (NO) e sequestramento do NO foi demonstrado em experiências usando o extrato de metanol da noz-moscada; O eugenol também foi apontado responsável por parte do efeito afrodisíaco devido a suas características vasodilatadoras e de relaxamento de músculo liso; O instituto nacional do câncer americano investigou a família botânica Myristicaceae para uma possível atividade contra algumas linhagens de leucemia.
De todos os extratos testados, 18,8% exibiu uma atividade antileucêmica: O macis porém foi capaz de modular a atividade das enzimas envolvidas na ativação e na desintoxicação de carcinogênicos.
Esta propriedade pode ser transmitida à prole em amamentação, através do leite materno dos ratos; Os efeitos citotóxicos e apoptóticos da miristicina também foram estudados.
A viabilidade celular foi reduzida pela exposição à miristicina de uma maneira dependente da dose e da época de administração. O safrol, um componente menor do óleo, foi mostrado capaz de promover o surgimento de hepatocarcinomas em ratos; A noz-moscada é conhecida há muito tempo por suas características psicóticas (que produzem a ansiedade e/ou medo, e alucinações), sendo mencionada em textos do século XVI a até fontes modernas encontradas em páginas da Internet.
Doses de 5 a 15 gramas, (equivalente a 1 – 3 sementes inteiras) são necessárias para produzir este efeito, mas a overdose tóxica ocorre em doses de 5 gramas. O abuso crônico da noz-moscada também já foi relatado. Os efeitos da intoxicação pela noz-moscada são variáveis e refletem efeitos anticolinérgicos e excitatórios do SNC.
Experiências conduzidas em camundongos encontraram uma atividade anticonvulsiva, além de outros efeitos comportamentais; Os óleos do macis e da noz-moscada, e também seus componentes individuais foram avaliados por sua atividade antimicrobiana in vitro.
Um estudo observou um efeito modulatório nas proteínas e/ou toxinas produzidas por algumas bactérias (Listeria, Staphylococcus aureus, Streptococcus mutans), porém nenhum efeito foi observado em outros microrganismos; Uma atividade antimicrobial foi mostrada contra alguns microrganismos orais, including a S. Mutans e Porphyromonas gingivalis, entre outros. A atividade contra outras bactérias inclui algumas linhagens de Escherichia COM, o rotavírus humano, algumas linhagens de Salmonella typhi, Bacillus subtilis, S.aureus e Listeria; Relatos sobre uma atividade semelhante contra fungos são conflitantes, em que nenhuma atividade contra o aspergilo ou outros fungos botânicos foi encontrada, mas atividade contra alguns dermatófitos foi observada; Experimentos foram conduzidos para avaliar o potencial antioxidante dos óleos da noz-moscada e do macis, e seus componentes químicos, porém, algumas destas avaliações foram consideradas fracas.
O aumento da atividade sexual (libido e potência) foi demonstrado em ratos masculinos que foram administrados extratos etanólicos de noz-moscada. Este estudo oferece alguma sustentação para o uso da noz-moscada como um afrodisíaco; Os extratos da noz-moscada mostraram-se bacteriostáticos contra o Helicobacter pylori in vitro.
Redução da acidez gástrica e do volume de secreções gástricas foram demonstradas em coelhos administrados um extrato de noz-moscada; Coelhos que receberam um extrato etanólico de noz-moscada, mostraram uma redução nos níveis de colesterol LDL e triglicerídeos, enquanto os níveis do colesterol HDL permaneceu inalterado.
Em um outro estudo, a noz-moscada também demonstrou possuir características hepatoprotetoras; Atividades anti-inflamatórias e analgésicas da noz-moscada foram relatadas em ratos. Uma atividade antitrombótica também foi relatada. A noz-moscada também mostrou possuir uma atividade similar à insulina in vitro.
Referências Bibliográficas
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